rotina criativa

sai para nadar em alto mar

kalina juzwiak
May 30, 2021
lifestyle
disciplina
reflexão
auto-conhecimento

sai para nadar, em alto mar

era um domingo, e tirei o dia para estar comigo mesma. Perto da natureza. Estava deitada em um sofá, lendo um livro. Ah fazia um tempo que não lia. Apenas com o som das folhas balançando e dos pássaros cantando. Aquele momento que até mexer perna de lugar parecia um esforço para um corpo e mente cansados. Levantei os olhos do livro por um momento e olhei para o céu cinza deste dia nublado e escutei. Minha voz interna mesmo. Ouvi também o mar. Ouvi ele me chamar. Decidi ir, caminhar. Deixei o livro, o celular, tudo para trás. Saindo pela porta, parei. Apenas porquê sentia que precisava escutar de novo. Subi a escada correndo e busquei o meu óculos. Não de sol, não tinha sol. O de natação mesmo.

sabe, aprendi a nadar, quase antes de saber andar. Na minha familia, que cresceu perto do mar, sempre foi uma premissa. Aprendi a ler e respeitar o mar, antes mesmo de saber quem eu era. Aulas de natação. Aulas de surf. Aulas de apenas sentar e observar. O mar. Com o tempo, nadar passou a ser algo além de uma "condição" e sim um dos únicos esportes que não preciso pensar. Que desligo de tudo que é mundo externo. Não há paisagem, não há pessoas, não há música. Em alto mar então, nem ladrilhos do fundo da piscina tenho para contar. É um momento meu, comigo mesma. Escuto a minha respiração. Não vejo muito além de alguns palmos à minha frente, em um dia em que o mar está tranquilo. Em dias mais conturbados, não vejo nada além das bolhas que solto ao respirar. O óculos serve apenas para me manter de olhos abertos. No início, pensamentos invadem a mente. Tudo aquilo que fiz ou poderia ter feito. Tudo aquilo que ainda está por vir. Até que com o tempo, tudo vai se silenciando. E me torno presente. Apenas me deixando levar pelo ritmo de pernadas, braçadas e respiradas. Sinto o corpo fluindo sobre a água. Às vezes deslizo sobre a calmaria, às vezes enfrento cada rajada que forma inúmeras ondas que me balançam.

cheguei à praia. Avistei alguns rostos conhecidos, sorri, e segui. Caminhei a praia toda, observando pessoas, o horizonte, os meus pensamentos. Recapitulando tudo aquilo que aconteceu - ou talvez poderia ter acontecido. Fui até o fim, voltei. E então parei. Com meus óculos ainda na mão, olhei para o horizonte. O mar estava inóspito. Um céu cinza. Na distância uma possível tempestade se formando. Á água sob os meus pés fizeram a minha pele se arrepiar. Estava gelada. Rajadas formavam nuvens, que pareciam carneiros, dançando no horizonte. Respirei fundo. E ouvi. A voz interna de novo. E o mar também. Me chamar. Me despi do meu shorts, vesti o óculos e sai.

fui nadar, em alto mar.

enfrentei, mergulhei, atravessei a água turva pelas ondas maiores do que pareciam do lado de fora. A mente foi invadida de pensamentos. Opa, será que deveria estar aqui fora? Sozinha? Sem a minha bóia laranja? E se algo acontece? E se eu tivesse falado isso? E se eu tivesse feito isso? O coração começa a acelerar. O óculos a embaçar. Levantei a cabeça, tirei o óculos, como quem tira um filtro. Mergulhei até sentir a areia sob os meus pés. Não estou tão fundo. Está tudo bem. Você sabe nadar, mesmo antes de saber andar. Vesti o óculos de novo, e com este ato, decidi me desapegar. De tudo que estava na minha mente, e focar apenas no mo(vi)mento. Braçadas e respiradas. Passei a arrebentação e lá fora, pequenas ondas causadas pelo vento, me ajudaram a encontrar um ritmo. Segui, ao longo da costa. Segui. Segui. Em conexão comigo mesma.

nestas saídas, em algum momento, gosto de parar, e apenas estar. Sentir o sal, o balançar, a água me envolver. De costas para a terra, olho apenas para o horizonte, feito de uma imensidão de liquidez. Fiz isso, como de costume. Boiei, tirei os óculos e observei. O calor do meu corpo. Meus pulmões se enchendo de ar. O pulsar do meu coração. Gritei. E neste ato, me desapeguei, de tudo aquilo que ainda estava preso aqui dentro, de alguma forma. Ou tudo aquilo que apenas queria sair. E sorri. Um sorriso sincero. De agradecimento. Por poder sentir. Por poder nadar. E amar. Cada mo(vi)mento da vida. Na calmaria ou na tempestade.

esta que se aproximava. Ouvi trovões ao fundo. Era hora de voltar. Para o mundo real. Mais 500m de braçadas, até direcionar o meu corpo para a terra. Sai do "meu mundo"e caminhei para o mundo. Onde pessoas se movimentavam, corriam, catavam suas roupas, com a tempestade se aproximando. Peguei o meu shorts, que havia largado ali no meio da areia mesmo. Algumas pessoas que passaram, me olharam. Olharam para o meu maiô. Olharam para os óculos nas minhas mãos. Olharam para o mar. E olharam confusos. Alguns admirados. Outros curiosos. Ela estava lá? Em alto mar? Será?

em silêncio, olhei de volta, e sorri. Um sorriso singelo e um balançar suave da cabeça. Sim, eu estava lá. Mas agora, estou aqui. Antes de sair para a rua, olhei para trás e para o horizonte novamente. A chuva estava se formando, e com ela uma chuva de raios. Um surfista sentado na areia, viu o meu movimento. Viu os raios. Nos olhamos. Sorrimos, em silêncio. Ele não apenas viu, mas também sentiu. Já na rua, as gotas começaram a cair do céu. Gotas grossas, geladas. Que só não perfuraram a minha pele, pois o calor do meu corpo estava reverberando ainda. Subi a rua da minha casa. Passos lentos, mas certeiros. E um sorriso - quase bobo - estampado no rosto. Avistei uma mulher, que descia apressada. E já não sabia se continuava olhando para o celular, respondendo alguma mensagem, ou se escondia o celular da chuva que engrossava. Ela olhou para mim e me viu sorrindo - ela sorriu e disse: que loucura! Eu abri os braços, olhei para o céu, senti as gotas lavando o meu rosto e disse: que delicia! Neste mesmo, quase como um reflexo, ela também abriu os braços, olhou para cima, fechou os olhos, respirou fundo e disse: é mesmo! E caiu na gargalhada. Desacelerou, e passou por mim. Acho que até esqueceu que estava com o celular na mão. Segui subindo, (sor)rindo.

passei pelo portão do meu condomínio, e os meninos que ali trabalham, olharam para mim, para o meu maiô, para o meu óculos nas mãos, riram e falaram: corajosa! Sorri de volta e disse: acho que me molhei um pouco. Rimos, juntos. Subi as escadas, abri a porta de casa com cuidado e subi na ponta dos pés, direto para o banho. A água foi esquentando e eu senti o meu corpo fazendo o mesmo. Ri. Alto mesmo, e agradeci. Eu ter escutado a minha voz. O mar. O chamar. O pulsar, do meu coração. 

todos os dias.

*nota: e talvez você pense: ih a kaju é meio louquinha. Isto também passou pela minha mente, posso garantir, mas talvez eu seja mesmo. Mas como já dizia Nietzche, aqueles que foram vistos dançando, foram julgados insanos, por aqueles que não podiam ouvir a música. Todos os dias estou aprendendo a escutar a minha música, e dançar conforme ela. E isso me mantém acordada. Conectada. Viva.


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